Agilson Cerqueira
Se estás a falar sempre com incoerências,
Mentiras e distúrbios emocionais: loquacidade!
Sem prosopopéia, carecerá soliloquiar!
Pois no eco do próprio desatino,
Onde o verbo é raso e o brio é escasso,
O mentiroso traça o seu destino:
Um nó cego no próprio abraço.
Melhor o mudo que se reconhece,
Do que o orador que se esvazia;
Pois quem na língua o mal oferece,
Na própria voz se asfixia.
Em pântanos de frases mal tecidas,
Onde a verdade é sombra que se esconde,
Perdem-se as pontes, sobram as feridas,
E o eco da razão já não responde.
Quem faz do sopro apenas ventania,
Sem o lastro do ser, sem o prumo,
Descobre, enfim, na própria agonia,
Que a palavra oca é só fumaça sem fumo.
É antes o deserto e a mudez profunda,
Onde o pensamento se faz luz e trilha,
Do que a torrente falsa que inunda,
E no próprio lodo se amordaça e humilha.