Agilson Cerqueira
Há dias em que as cores parecem abandonar o mundo. Não desaparecem de uma vez; desbotam lentamente, como se cada decepção retirasse delas um pouco do brilho. As verdades, antes tão sólidas, tornam-se frágeis, dissolvem-se no tempo e deixam apenas a dúvida caminhando ao nosso lado. A labuta diária cobra um preço silencioso: leva as horas, afasta os abraços, endurece o olhar e reduz a vida ao estritamente necessário.
Então passamos a existir como sombras de nós mesmos. Caminhamos, trabalhamos, seguimos em frente, mas algo permanece para trás, perdido em algum lugar que já não sabemos nomear. Nessas horas, o sono deixa de ser descanso e passa a ser refúgio. O pensamento implora pelo silêncio, pela calma que o mundo moderno parece ter esquecido. O ócio, que um dia foi espaço para respirar, converteu-se em privilégio raro.
Há em frente uma estrada longa, tortuosa, de chão batido. Ao longe, montanhas cobertas por um cinza indefinido escondem o horizonte. Não há atalhos. Apenas o vento acompanha nossos passos, espalhando perguntas que nunca se deixam responder por inteiro.
No caminhar sozinho, descubro que a verdadeira travessia acontece dentro de mim.
Pensar deveria ser um gesto inocente. Pensar é tocar os espinhos invisíveis da existência. É enxergar as contradições que muitos preferem ignorar. É insistir na busca de sentido quando tudo parece caminhar para o vazio. Há momentos em que os pensamentos são um deserto, onde as ideias se dispersam como grãos de areia levados pelo vento, incapazes de encontrar um lugar onde possam florescer.
A condição humana parece ser esta: conviver com uma lógica que não justifica o sofrimento e com perguntas que nunca calam. Ainda assim, seguimos. Não porque compreendemos tudo, mas porque a caminhada continua mesmo quando o entendimento nos abandona.
E é justamente quando já não se espera por mudança que percebo uma delicada transformação. O cinza começa a adquirir tons de azul. Quase imperceptivelmente, as cores regressam. Não voltam com o esplendor dos dias fáceis, mas com a serenidade de quem conhece o rigor das tempestades. Os pensamentos saem do caos e começam a tomar forma.
Compreendo, então, que pensar e viver continuarão exigindo coragem. Mas percebo que a caminhada humana rejeita a solidão absoluta. Mesmo quando nos sentimos reduzidos a fragmentos, há outras vidas atravessando o mesmo silêncio, procurando, como nós, um pequeno sinal entre as montanhas do pensamento.
Talvez seja essa a única certeza que nos pertença: o cinza nunca foi um destino, apenas uma estação da travessia. O azul não chega para apagar as sombras, mas para lhes dar horizonte. E seguimos, porque viver talvez seja exatamente isto: caminhar sabendo que cinza não é tom de azul, mas se define pela luminosidade entre o branco e o preto.