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Agilson Cerqueira
Prosa, Verso e Arte
Textos

LEMBRANÇAS DA INFÂNCIA

Agilson Cerqueira

Na Estrada de Ferro de Ilhéus,

A Maria Fumaça movida a lenha;

Faíscas saltando da chaminé,

Cheiro de cabelo queimado...

E lá vai o trem.

Fazia o vai-e-vem entre Ilhéus e Itabuna,

Levando gente, sonhos e cacau;

Vencia curvas entre a mata,

Seguindo o velho roteiro ancestral.

Passava por vilas e fazendas,

Onde mãos calejadas acenavam;

O apito anunciava sua chegada,

E os caminhos de ferro despertavam.

O maquinista, de rosto tisnado,

Conhecia cada ponte e cada estação;

Conduzia a velha locomotiva

Como quem carregava um coração.

Nós contávamos os vagões,

Disputando quem acertava primeiro;

Acenávamos para os passageiros,

Que sorriam o percurso inteiro.

Quando cruzava os rios,

O trem parecia desacelerar;

Como se também admirasse

As águas correndo rumo ao mar.

Aproximando-se de Itabuna,

A cidade ganhava outro colorido;

O comércio fervilhava nas ruas,

E a estação era um mundo reunido.

Levavam sacas de cacau,

Malas, notícias e correspondências;

Partiam saudades, reencontros,

Esperanças e novas existências.

À tardinha, o sol avermelhado

Vestia de ouro a velha composição;

E a fumaça, lenta no horizonte,

Parecia uma prece em procissão.

Hoje os trilhos já desapareceram,

Silenciados pelo tempo que passou;

Mas na memória ainda ecoa o apito

Da locomotiva que jamais parou.

Porque há lembranças que não enferrujam,

Nem se apagam com o vento ou com a idade;

Elas seguem viajando em nosso peito,

Como um velho trem cruzando a eternidade.

E quando a saudade aperta o peito,

Ainda escuto o ferro a ressoar;

Não é o trem que volta aos trilhos,

É a infância que insiste em viajar.

De Ilhéus a Itabuna, sigo menino,

Mesmo que o tempo diga que não;

Pois há caminhos que permanecem vivos

Quando continuam passando pelo coração

Agilson Cerqueira
Enviado por Agilson Cerqueira em 01/08/2026
Alterado em 10/10/2026
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