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Agilson Cerqueira
Prosa, Verso e Arte
Textos

NÃO SEI!

Agilson Cerqueira

Não sei.

Talvez essa seja a frase mais honesta que um ser humano possa pronunciar. A dúvida oferece respostas provisórias; o conhecimento, ao contrário, revela a verdadeira dimensão da consciência.

Meus sentimentos são uma razão sem razão. Não lhes atribuo qualquer romantismo. Não há lirismo nisso. Há apenas o conflito permanente entre aquilo que penso compreender e aquilo que inevitavelmente sinto. A razão organiza, mas não governa. O sentimento desorganiza, mas também revela.

Sou cético. Desconfio das certezas, das verdades prontas e das convicções que nunca enfrentaram a dúvida. Sou prático porque a realidade exige ação, mas sinto falta do pensamento simples, daquele que repousa sem a necessidade de explicar tudo. Invejo a serenidade de quem consegue abandonar, ainda que por instantes, a disciplina cartesiana e apenas existir.

Durante muito tempo procurei um lugar onde pudesse caber. Julguei-me sabedor quando pensava demais. Julguei-me povo quando percebia que minha origem jamais abandonava minhas palavras. Descobri, então, que não era uma coisa nem outra. Habito um intervalo. Um espaço sem nome, onde as classificações deixam de fazer sentido.

Há uma decepção silenciosa em não ser. Não por ausência de identidade, mas pela incapacidade de coincidir consigo mesmo.

Quero ser inteiro, porém encontro apenas fragmentos. Cada escolha revela uma parte e esconde outra. Cada resposta cria uma nova pergunta.

Talvez a existência imponha um único dever: ser. Não podemos escapar disso. Até a recusa é uma forma de existir. Ainda assim, há dias em que o ser parece incompleto, insuficiente, sempre aquém daquilo que imaginamos poder alcançar.

Percebo, enfim, que a inquietude e a insatisfação não são defeitos da consciência. São sua matéria-prima. Construímos nossa identidade menos pelo que somos do que pela distância entre o que vivemos e aquilo que ainda buscamos.

Continuo sem saber.

E talvez seja exatamente esse "não sei" que me impeça de aceitar respostas fáceis e me obrigue a permanecer humano.

Agilson Cerqueira
Enviado por Agilson Cerqueira em 03/08/2026
Alterado em 10/10/2026
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