Agilson Cerqueira
Se a necessidade de acreditar em Deus ainda habita teu espírito, acredita no Deus de Spinoza.
Não no Deus que recompensa alguns e castiga outros; não no Deus que intervém para alterar o curso da natureza, suspendendo as leis que Ele próprio teria criado. Acredita naquele que não se ofende com perguntas, porque toda pergunta sincera já é uma forma de reverência.
Esse Deus não vive escondido atrás das nuvens, nem aguarda ser encontrado em templos de pedra. Sua morada é o universo. Está no movimento silencioso das galáxias, no curso dos rios, na geometria das folhas, na persistência das montanhas e na dança invisível das partículas que sustentam a matéria.
Ele não fala por meio de profetas. Fala pela gravidade que mantém os mundos em equilíbrio; pela luz que atravessa milhões de anos para alcançar nossos olhos; pela semente que rompe a terra sem jamais ter estudado botânica; pelo nascimento e pela morte, que obedecem à mesma ordem eterna da existência.
Não exige joelhos dobrados, mas olhos abertos.
Não deseja submissão, mas compreensão.
Conhecer uma árvore, compreender um rio, admirar uma nebulosa ou reconhecer a complexidade de uma única célula talvez seja uma forma mais profunda de oração do que muitas palavras repetidas sem reflexão.
Nesse Deus não existe separação entre o sagrado e o natural. A natureza não é sua obra; ela é sua própria manifestação. Tudo o que existe participa da mesma realidade infinita. Nós não estamos diante dela como espectadores. Somos uma expressão passageira dessa imensa totalidade que chamamos de Universo.
Talvez por isso o espanto seja mais importante que a certeza. A dúvida não enfraquece a fé; amplia o horizonte do conhecimento. Quem pergunta com honestidade aproxima-se mais do mistério do que quem acredita possuir todas as respostas.
Esse Deus não promete um paraíso futuro como recompensa. O paraíso possível é a consciência desperta, capaz de perceber a extraordinária beleza daquilo que sempre esteve diante de nós e que, por hábito, deixamos de contemplar.
A liberdade não nasce do medo do castigo, mas da compreensão da ordem que sustenta todas as coisas. Amar esse Deus é amar a realidade como ela é, com suas leis, seus ciclos, suas transformações e sua infinita capacidade de criar formas de existência.
Se precisares acreditar, acredita nesse Deus.
No Deus que não divide os homens entre escolhidos e esquecidos.
No Deus que não pertence a uma religião, a um povo ou a um livro.
No Deus que respira em cada estrela, floresce em cada árvore, pulsa em cada ser vivo e permanece inteiro mesmo quando ninguém pronuncia o seu nome.
Porque, talvez, o maior ato de fé não seja esperar um milagre.
Talvez seja contemplar o Universo, reconhecer-se parte dele e compreender, com humilde serenidade, que conhecer a Natureza é aproximar-se do infinito.