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Agilson Cerqueira
Prosa, Verso e Arte
Textos

SOLILÓQUIOS

Agilson Cerqueira

Há uma satisfação silenciosa em conversar comigo mesmo.

Não preciso esperar respostas. Falo, penso, lembro. Às vezes, até discordo de mim.

E, quando percebo, estou sorrindo de alguma lembrança que chegou ao pensamento sem ser convidada.

São as pequenas coisas do cotidiano que mais me visitam.

Uma frase esquecida, um gesto, uma cena banal, uma conversa que ficou pela metade.

De repente, tudo retorna com uma graça inesperada, e eu me pego dando gargalhadas silenciosas.

É o momento mais fiel aos pensamentos verdadeiros. Existe uma certa liberdade em não precisar explicar a lucidez ou a loucura.

Gosto desse encontro comigo mesmo.

Do silêncio que não constrange.

Da companhia que não exige palavras.

Do pensamento que caminha sem destino, tropeça numa lembrança e acaba encontrando outra.

É uma conversa íntima, dessas que não precisam de testemunhas. No meu silêncio, às vezes sou criança, às vezes sou velho.

Reencontro pessoas que já partiram, lugares que desapareceram e momentos que o tempo levou, mas não conseguiu apagar completamente.

E então sorrio.

Porque a memória tem esse estranho poder: devolve o que já não existe, ainda que apenas por um instante.

Talvez essa seja a verdadeira satisfação do só.

Não estar sozinho.

Mas estar suficientemente acompanhado de si mesmo para não sentir falta do mundo o tempo inteiro.

Há dias em que gosto simplesmente de ficar comigo.

Sem explicações.Sem compromissos.

Sem a obrigação de parecer alguma coisa.

Apenas eu, meus pensamentos e essa pequena multidão de lembranças que mora dentro de mim.

E quando uma delas me faz rir, eu rio.

Rio sozinho.

E descubro que, às vezes, a melhor conversa que podemos ter é aquela em que ninguém mais precisa ouvir.

Agilson Cerqueira
Enviado por Agilson Cerqueira em 12/08/2026
Alterado em 10/10/2026
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