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Agilson Cerqueira
Prosa, Verso e Arte
Textos

QUANDO O APLAUSO REVERENCIA A ESTUPIDEZ

Agilson Cerqueira

Quando o aplauso reverencia a estupidez, você deixa de ser apenas espectador: torna-se refém de outro.

A estupidez, às vezes, é pior que a maldade. Contra a maldade ainda se pode lutar, porque ela se revela, assume uma direção, mostra o seu rosto. Contra a estupidez, porém, quase não há defesa.

O estúpido não é necessariamente alguém de pouca inteligência. É, muitas vezes, alguém que renunciou ao próprio exercício da razão.

Alguém que entregou a capacidade de pensar a uma pessoa, a um grupo, a uma ideologia, a uma crença qualquer que lhe ofereça respostas prontas.

A partir daí, os fatos já não conseguem convencê-lo.

Como convencê-lo, se ele já não possui uma razão que seja propriamente sua?

Ele possui a razão de outro — e, talvez, sequer saiba disso.

Sente-se grandioso por repetir aquilo que recebeu. Seus questionamentos são emprestados. Suas certezas foram construídas por mãos alheias. Até sua indignação pode ter sido ensinada.

E quanto mais repete, mais acredita que pensa.

O estúpido raramente se reconhece como tal. Ao contrário: seu egocentrismo transforma ignorância em certeza, submissão em convicção e repetição em conhecimento.

É assim que a manipulação encontra seu terreno mais fértil: quando alguém deixa de pensar e passa a sentir orgulho daquilo que pensa apenas porque outro pensou antes por ele.

Talvez a maior tragédia da estupidez não seja não saber.

É não perceber que deixou de pensar.

E quando o aplauso passa a reverenciar a estupidez, o absurdo deixa de parecer absurdo. Torna-se consenso.

E a estupidez, então, já não precisa se defender. Ela é defendida por aqueles que renunciaram à própria razão.

A estupidez é estúpida porque, antes de tudo, desistiu de perguntar.

Agilson Cerqueira
Enviado por Agilson Cerqueira em 17/08/2026
Alterado em 10/10/2026
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