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Agilson Cerqueira
Prosa, Verso e Arte
Textos

ENTRE A SENSIBILIDADE E A RAZÃO

Agilson Cerqueira

A arte talvez seja uma das formas mais antigas de perguntar ao mundo aquilo que a razão, sozinha, não consegue responder.

Antes mesmo de aprendermos a explicar a vida, já éramos capazes de senti-la. Talvez por isso a poesia tenha nascido tão próxima do silêncio. Ela habita esse território indefinido entre aquilo que somos capazes de compreender e aquilo que apenas conseguimos sentir.

A prosa e a poesia nascem desse encontro entre o pensamento e a emoção. Percebem a lágrima antes que alguém pergunte pela dor, escutam o silêncio antes que ele se transforme em palavra e descobrem, nas pequenas coisas, aquilo que a pressa dos dias costuma esconder.

Há uma espécie de sabedoria no sentir.

Mas sentir, por si só, não basta.

O mundo está cheio de acontecimentos que nos cruzam sem que, necessariamente, nos transformem. Vemos a injustiça, percebemos a desigualdade, reconhecemos a dor, mas nem sempre perguntamos de onde elas vêm, porque permanecem e o que fizemos para que continuem existindo.

É nesse instante que a razão se aproxima.

A sensibilidade nos permite perceber o que o outro sente. A razão nos convida a compreender por que ele sente.

Uma nos aproxima; a outra nos interroga.

Talvez seja nessa passagem entre o coração que percebe e o pensamento que questiona que nasça a consciência.

Porque há uma diferença profunda entre olhar e enxergar.

Olhar pode ser apenas um movimento dos olhos. Enxergar é permitir que aquilo que vemos encontre lugar dentro de nós.

A arte nos ensina justamente isso: a não passar indiferentes diante daquilo que existe.

Os problemas vivem nas histórias humanas, nos silêncios, nas ausências, nas oportunidades que não chegaram e nos sonhos que, por alguma razão, ficaram pelo caminho.

A razão pode organizar o mundo em conceitos.

A poesia devolve a esses conceitos um rosto.

A ciência procura compreender os fenômenos. A arte procura compreender o homem diante deles.

E talvez nenhuma das duas seja suficiente sozinha.

A razão sem sensibilidade pode compreender a realidade sem senti-la. A sensibilidade sem razão pode sentir profundamente sem compreender aquilo que sente.

Por isso, entre uma e outra existe um espaço precioso: o espaço da consciência.

A arte sente.

A poesia revela.

A razão pergunta.

A consciência transforma.

Talvez seja essa a delicada tarefa da arte: não oferecer respostas prontas, mas despertar perguntas que já não nos permitam viver da mesma maneira.

Porque algumas palavras não foram feitas para explicar o mundo. Foram feitas para nos modificar diante dele.

Entre um verso e outro existe o silêncio.

Entre uma ideia e outra, a dúvida.

Entre o sentir e o pensar, existe o homem — sempre incompleto, sempre procurando compreender aquilo que sente e sentir aquilo que compreende.

A arte não ilumina apenas aquilo que está escuro.

Às vezes, ela ilumina dentro de nós aquilo que ainda não havíamos percebido.

E quando a sensibilidade encontra a razão, o pensamento deixa de ser apenas pensamento.

Torna-se consciência.

E a consciência, quando verdadeiramente desperta, já não consegue permanecer indiferente diante da vida.

Agilson Cerqueira
Enviado por Agilson Cerqueira em 18/08/2026
Alterado em 10/10/2026
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