Agilson Cerqueira
Há palavras que, de tanto serem repetidas, deixam de ser pensadas.
Deus.
Pátria.
Família.
Três palavras que carregam séculos de história, afeto, fé, pertencimento, conflitos e significados. Separadamente, podem representar experiências profundas da existência humana. Juntas, porém, quando transformadas em uma fórmula incontestável, podem assumir outra função: a de encerrar perguntas antes mesmo que elas sejam feitas.
Talvez seja aí que comece a alienação.
Não há mediocridade em crer em Deus, amar a família ou sentir pertencimento à pátria. A mediocridade está em aceitar qualquer uma dessas palavras como argumento suficiente para não pensar.
A fé, quando verdadeira, não deveria temer a dúvida. A pátria, quando digna, não deveria exigir submissão ao erro. A família, quando constituída pelo afeto, não deveria impedir a autonomia de seus membros.
Mas há uma espécie de pensamento que prefere a segurança das palavras à inquietação das ideias. Ele oferece conceitos prontos, respostas acabadas e certezas convenientes. Não exige reflexão; exige adesão.
E talvez, justamente por isso que seja tão sedutor.
O indivíduo alienado não precisa necessariamente ser ignorante. Pode ser alguém instruído, informado, religioso, patriota, trabalhador e profundamente ligado à família. A alienação pode existir justamente onde há muitas certezas e poucas perguntas.
Quem pensa pergunta.
Pergunta o que é Deus para além da palavra que lhe ensinaram. Pergunta o que significa pátria quando o país não oferece dignidade a todos. Pergunta o que é família quando a tradição serve para justificar violência, silenciamento ou desigualdade.
Pensar é perigoso para qualquer sistema que dependa da obediência.
Por isso, palavras grandiosas podem ser transformadas em instrumentos pequenos.
Deus pode ser utilizado para legitimar o poder de homens que falam em seu nome. A pátria pode ser convocada para exigir sacrifícios daqueles que pouco participam de suas riquezas. A família pode ser invocada para preservar hierarquias que deveriam ser questionadas.
Nesse momento, aquilo que deveria ser valor transforma-se em mecanismo de controle.
Não é Deus que aliena.
Não é a pátria que aliena.
Não é a família que aliena.
É a utilização dessas ideias como absolutos, como se fossem capazes de substituir a consciência individual.
Há uma diferença enorme entre possuir valores e ser possuído por eles.
O homem livre pode amar sua família e, ainda assim, discordar dela. Pode amar sua pátria e criticá-la. Pode ter fé e questionar os homens que dizem representá-la.
Talvez a verdadeira maturidade esteja justamente nessa capacidade de amar sem abdicar da razão.
Porque amar uma pátria não significa fechar os olhos para suas injustiças.
Amar uma família não significa aceitar todas as suas verdades.
E acreditar em Deus não deveria significar terceirizar a própria consciência.
Uma sociedade intelectualmente pobre é aquela em que as pessoas repetem palavras nobres sem compreender aquilo que elas deveriam significar.
É possível gritar “Deus, Pátria e Família” e, ao mesmo tempo, desconhecer a compaixão, a justiça, a liberdade e a responsabilidade que deveriam acompanhar essas palavras.
Talvez o problema não esteja na tríade.
Talvez esteja na facilidade com que transformamos palavras em muros.
Quando isso acontece, a linguagem deixa de abrir caminhos e passa a fechá-los. A palavra já não provoca reflexão; ordena. Já não convida ao diálogo; exige reconhecimento. Já não representa uma ideia; passa a funcionar como senha de pertencimento.
E quem não repete a senha é imediatamente colocado do lado de fora.
É assim que a alienação se torna confortável.
Ela dispensa o esforço de pensar.
E talvez essa seja sua forma mais perigosa: fazer o indivíduo acreditar que está pensando justamente porque está repetindo aquilo que todos ao seu redor repetem.
Pensar, entretanto, começa quando a repetição termina.
Começa quando temos coragem de olhar para nossas próprias certezas e perguntar:
Por que acredito nisso?
Não porque alguém mandou.
Não porque sempre foi assim.
Não porque todos dizem.
Mas porque, depois de pensar, questionar e confrontar nossas próprias contradições, ainda encontramos razões para acreditar.
Talvez uma sociedade realmente livre não precise de homens que repitam “Deus, Pátria e Família”.
Precise de homens capazes de perguntar o que Deus, pátria e família significam — e, sobretudo, capazes de reconhecer quando essas palavras estão sendo utilizadas para impedir que alguém faça perguntas.