Agilson Cerqueira
Só de ver o sol brilhar,
há alguma coisa em nós
que se acende.
Talvez esperança.
Talvez apenas a consciência
de que mais um dia nos foi dado
sem que o tivéssemos pedido.
A lua se manifesta
no silêncio da noite
e a escuridão deixa de ser ausência:
há coisas que só aparecem
quando a luz se recolhe.
Pensamentos.
Memórias.
Perguntas.
O vento sopra
sem forma, sem rosto,
movendo folhas, árvores e cortinas.
Sabemos que o vento passou
porque sentimos na pele seu soprar.
Talvez sejamos assim também:
passamos pela vida
deixando movimentos
que nem sempre percebemos.
Uma palavra.
Um gesto.
Um olhar.
Uma ausência.
O calor nos expande.
O frio nos encolhe.
Entre um e outro,
aprendemos que existir
também é alternância.
Nada permanece.
Nem o calor,
nem o frio,
nem a alegria,
nem a tristeza.
E talvez justamente por passar,
tudo ganhe importância.
O lumiar rompe a sombra
e nos permite enxergar.
O escurecer, porém,
recolhe as cores
e devolve ao mundo o mistério
daquilo que os olhos não alcançam.
Tudo se move.
O mundo.
O tempo.
Nós.
Mesmo quando permanecemos imóveis,
alguma coisa dentro de nós
continua passando o tempo.
O amanhecer retorna,
mas nunca é o mesmo.
O céu repete suas cores,
o sol nasce no mesmo lugar,
os pássaros retomam seus cantos,
mas nós já somos outros.
Talvez envelhecer seja isso:
continuar sendo nós
enquanto nos tornamos outros.
O pássaro canta
para alegrar-se em sinfonias.
A flor se abre para mostrar sua beleza, e a
contemplamos.
A chuva cai
sem saber que pensamos sobre ela.
E talvez exista nisso
uma das grandes lições da existência:
o universo não precisa
da nossa compreensão
para continuar existindo.
Ele simplesmente acontece.
Nós é que precisamos perceber
que estamos acontecendo dentro dele.
Somos espectadores
e parte do espetáculo.
Pensamos sobre a vida
com a própria vida.
Perguntamos quem somos
sendo aquilo que somos.
Procuramos um sentido
sem sequer saber
se o sentido existe.
E, ainda assim, continuamos.
Talvez porque viver
não exija respostas.
Talvez exija presença.
Estar.
Sentir.
Perceber.
Um raio de sol na parede.
O vento repousando no fim da tarde.
A lua suspensa no escuro.
O silêncio entre duas palavras.
O corpo respirando
sem que precisemos ordenar-lhe que respire.
Há uma sabedoria silenciosa
nas coisas que simplesmente são.
A árvore não pergunta por que cresce.
A chuva não pergunta onde cair.
O vento não pergunta por que sopra.
E nós, que perguntamos tanto,
talvez tenhamos esquecido
que também somos natureza.
Queremos saber
por que nascemos,
por que amamos,
por que perdemos,
por que envelhecemos,
por que morremos.
Talvez nenhuma resposta seja suficiente.
A vida não é um problema
à espera de solução.
É um acontecimento do acaso.
Um breve intervalo
entre o que não sabemos do começo
e o que tememos do fim.
E nesse intervalo
há o sol,
a lua,
o vento,
o calor,
o frio,
a luz e a sombra.
E há nós.
Tentando compreender
o incompreensível,
enquanto o mundo, indiferente às nossas perguntas,
continua acontecendo.
Por isso, talvez,
não seja preciso mais nada.
Uma fresta de luz.
Um sopro de vento.
A lua sobre o silêncio.
A própria respiração.
Não como resposta,
mas como presença.
Não como certeza,
mas como espanto.
Não como explicação,
mas como consciência.
Só de ver.
Só de sentir.
Só de estar.
Viver.
E, apesar de tudo,
sonhar.