× Capa Textos E-books Fotos Perfil Prêmios Livro de Visitas Contato Links
Agilson Cerqueira
Prosa, Verso e Arte
Textos

SÓ DE VER

Agilson Cerqueira

Só de ver o sol brilhar,

há alguma coisa em nós

que se acende.

Talvez esperança.

Talvez apenas a consciência

de que mais um dia nos foi dado

sem que o tivéssemos pedido.

A lua se manifesta

no silêncio da noite

e a escuridão deixa de ser ausência:

há coisas que só aparecem

quando a luz se recolhe.

Pensamentos.

Memórias.

Perguntas.

O vento sopra

sem forma, sem rosto,

movendo folhas, árvores e cortinas.

Sabemos que o vento passou

porque sentimos na pele seu soprar.

Talvez sejamos assim também:

passamos pela vida

deixando movimentos

que nem sempre percebemos.

Uma palavra.

Um gesto.

Um olhar.

Uma ausência.

O calor nos expande.

O frio nos encolhe.

Entre um e outro,

aprendemos que existir

também é alternância.

Nada permanece.

Nem o calor,

nem o frio,

nem a alegria,

nem a tristeza.

E talvez justamente por passar,

tudo ganhe importância.

O lumiar rompe a sombra

e nos permite enxergar.

O escurecer, porém,

recolhe as cores

e devolve ao mundo o mistério

daquilo que os olhos não alcançam.

Tudo se move.

O mundo.

O tempo.

Nós.

Mesmo quando permanecemos imóveis,

alguma coisa dentro de nós

continua passando o tempo.

O amanhecer retorna,

mas nunca é o mesmo.

O céu repete suas cores,

o sol nasce no mesmo lugar,

os pássaros retomam seus cantos,

mas nós já somos outros.

Talvez envelhecer seja isso:

continuar sendo nós

enquanto nos tornamos outros.

O pássaro canta

para alegrar-se em sinfonias.

A flor se abre para mostrar sua beleza, e a

contemplamos.

A chuva cai

sem saber que pensamos sobre ela.

E talvez exista nisso

uma das grandes lições da existência:

o universo não precisa

da nossa compreensão

para continuar existindo.

Ele simplesmente acontece.

Nós é que precisamos perceber

que estamos acontecendo dentro dele.

Somos espectadores

e parte do espetáculo.

Pensamos sobre a vida

com a própria vida.

Perguntamos quem somos

sendo aquilo que somos.

Procuramos um sentido

sem sequer saber

se o sentido existe.

E, ainda assim, continuamos.

Talvez porque viver

não exija respostas.

Talvez exija presença.

Estar.

Sentir.

Perceber.

Um raio de sol na parede.

O vento repousando no fim da tarde.

A lua suspensa no escuro.

O silêncio entre duas palavras.

O corpo respirando

sem que precisemos ordenar-lhe que respire.

Há uma sabedoria silenciosa

nas coisas que simplesmente são.

A árvore não pergunta por que cresce.

A chuva não pergunta onde cair.

O vento não pergunta por que sopra.

E nós, que perguntamos tanto,

talvez tenhamos esquecido

que também somos natureza.

Queremos saber

por que nascemos,

por que amamos,

por que perdemos,

por que envelhecemos,

por que morremos.

Talvez nenhuma resposta seja suficiente.

A vida não é um problema

à espera de solução.

É um acontecimento do acaso.

Um breve intervalo

entre o que não sabemos do começo

e o que tememos do fim.

E nesse intervalo

há o sol,

a lua,

o vento,

o calor,

o frio,

a luz e a sombra.

E há nós.

Tentando compreender

o incompreensível,

enquanto o mundo, indiferente às nossas perguntas,

continua acontecendo.

Por isso, talvez,

não seja preciso mais nada.

Uma fresta de luz.

Um sopro de vento.

A lua sobre o silêncio.

A própria respiração.

Não como resposta,

mas como presença.

Não como certeza,

mas como espanto.

Não como explicação,

mas como consciência.

Só de ver.

Só de sentir.

Só de estar.

Viver.

E, apesar de tudo,

sonhar.

Agilson Cerqueira
Enviado por Agilson Cerqueira em 02/09/2026
Alterado em 10/10/2026
Comentários