Agilson Cerqueira
Quando se lê Os Miseráveis, de Victor Hugo, ninguém sai ileso.
Após folhear as páginas de um livro que levou trinta anos para ser escrito, alguma coisa muda. Porque diante da grandeza da obra não estão apenas personagens, pobreza, injustiça e sofrimento. Está o próprio homem diante de suas escolhas, de seus preconceitos, de sua indiferença e de sua capacidade de compaixão.
Fico a imaginar o quão sofrido é escrever sobre o sofrimento humano sem desistir por um período tão grande.
Uma vida em uma obra, ou melhor, em uma obra-prima.
Os Miseráveis é para ler e olhar para a miséria sem a distância confortável de quem observa o sofrimento alheio. É perceber que, muitas vezes, a sociedade fabrica seus miseráveis antes de condená-los por serem aquilo que ela mesma os ajudou a criar.
Por isso, depois da leitura, continuar exatamente a mesma pessoa é ser desprovido de sensibilidade e ter um olhar ausente da humanidade.
Quem lê pode até fechar o livro.
Mas não deveria conseguir fechar os olhos.