EM DESCRIÇÃO POÉTICA OU NÃO
Agilson Cerqueira
Quando o centro do grande paradoxo da criação e da linguagem se torna cético, percebemos que a linguagem não consegue captar toda a realidade e a criação.
Portanto, quando tentamos dar nome, limitar ou explicar o ato criativo original, a palavra vira um obstáculo, não uma ponte. E na busca pela palavra certa, o real se estabelece ao mostrar sua crueza. Isso cria a medida do que acontece, pois há uma busca pela objetividade necessária para mostrar o mundo como ele é.
A razão analítica é a ferramenta usada. Ela organiza o caos dos eventos e faz o dia a dia ficar compreensível, mas o prosador e o poeta não são apenas agentes passivos da emoção.
A poesia mais profunda nunca foi só um derramamento de sentimento. Ademais, a arte poética pede uma técnica rigorosa, a construção da palavra, a suspensão do óbvio e a escolha do ritmo e da métrica.
É a sensibilidade passada pelo filtro da razão, onde o pensamento vira forma e a emoção ganha estrutura.
Assim, o pensamento poético funciona em um nível mais alto. Nele, sentir e pensar não entram em conflito: é um olhar que observa, mede e conta a realidade dos fatos; é a consciência que filtra essa realidade; e é ela que dá forma ao que não se vê por meio de uma sensibilidade organizada.
Quando a razão do fato faz o poeta sofrer, esse choque entre a realidade e a força do sentimento cria a poesia que mais vinga.
Dessa forma, a sensibilidade sem razão se esvazia no excesso; a razão sem sensibilidade fica na frieza, e é no equilíbrio tenso entre ambas que a palavra ganha vida.